domingo, 25 de maio de 2014

EPISÓDIOS E DOCUMENTOS DA GUERRA PENINSULAR II






In: "Arquivo Nacional" n.º 90 de Set1933 (colecção particular)
marr

MILÍCIAS


CHAPÉUS
Modelo 1806/09


Um dos principais problemas surge-nos quando tentamos analisar as coberturas de cabeça dos componentes dos Regimentos de Milícias, primeiramente porque o Plano de Uniformes de Maio de 1806, não é nada claro e esclarecedor a esse respeito: «em vez de barretina usarão chapéus redondos com uma pele em forma de pluma desde a parte anterior até à posterior da copa», nada mais acrescentando.

Como é do conhecimento geral, o Plano de 1806 só passou a ter utilização prática em 1808, uma vez que a sua execução foi abruptamente cortada com a invasão franco-espanhola comandada por Junot, tendo as tropas francesas entrado em Lisboa no dia 30 de Novembro de 1807, começando a sua retirada para França, após a assinatura da Convenção de Sintra a 30 de Agosto de 1808, tendo-se então restabelecido o governo legítimo em Lisboa a 15 de Setembro desse mesmo ano.

Após a retirada das forças inimigas, começou-se a trabalhar afincadamente na reorganização do nosso Exército e por força do Alvará de 20 de Dezembro de 1808, foi publicado o Regulamento de Milícias, onde no Capítulo VI se trata do «Fardamento dos Regimentos de Milícias» onde no Paragrafo I se lê: «os milicianos continuarão a prever-se à sua custa do fardamento competente determinado do Plano de Uniformes de 19 de Maio de 1806, advertindo, que nos chapéus terão uma presilha branca de galão número 30 que, segurando o laço, venha prender junto à aba num pequeno botão branco e liso; devendo ser de prata a presilha dos Oficiais e Oficiais Inferiores e de lã as dos Cabos, Soldados e Tambores».

Frontispício do Alvará de 20 de Dezembro de 1808
(colecção particular)

Não resta dúvidas que no regulamento acima referido a descrição da cobertura de cabeça vem mais pormenorizada, contudo não é suficientemente claro no que diz respeito ao modelo do chapéu e as fontes iconográficas em vez de esclarecerem, ainda nos colocam mais dúvidas, uma vez quer existem diversas leituras e sensibilidades nas suas interpretações; assim penso que a fonte mais fidedigna diz respeito a umas gravuras posteriormente aguareladas onde se vêem oficiais e soldados de Milícias com um chapéu alto (cartola) com abas redondas (fig.1).

Figura n.º 1
(colecção particular)

Já Ribeiro Artur, na sua aguarela do Regimento de Penafiel, mostra-nos um chapéu de copa redonda e com a aba esquerda fixa à mesma por intermédio de um botão que prende o laço e a presilha (fig. 2).

Figura n.º 2
(Colecção de postais ilustrados, edição Jornal do Exército)


No meu trabalho publicado no Jornal do Exército em 1979 e 1996 apresentei as duas versões, (fig.3).

Figura n.º 3
(colecção particular)












No livro “The Portuguese Army of the Napoleonic Wars” vol. 3, encontra-se na prancha “C” um chapéu (fig.4) que é o que mais se aproximam da gravura (fig.1).

Figura n.º 4


Finalmente na “Collecção Systematica das Leis Militares de Portugal”, tomo III, que eu possuo, nada mais se adianta sobre este assunto.

(colecção particular)

Como a moda civil influenciou muito o uniforme militar, nessa época, talvez indo por essa via poderemos ter uma pista no que diz respeito aos chapéus das Milícias. Corria o ano de 1809, quando a moda inglesa começou a dar o “tom” tendo-se introduzido em Portugal a moda do chapéu redondo ou chapéu alto (fig.5) já até então muito utilizado pelos boleeiros a partir de1788.

Figura n.º 5
(colecção particular)













Wellington apresentava-se muitas vezes de chapéu alto de cor clara e Beresford, quando à civil, era regularmente visto a passear pelas ruas de Lisboa com um idêntico, mas de oleado. Algumas unidades inglesas também utilizaram este género de cobertura de cabeça (fig.6).

Figura n.º 6
(colecção particular)

Existe, ou existia no Arquivo Histórico Militar um desenho, que nos mostra vários pormenores de um chapéu, sem nenhuma legenda, que poderá ser de Milícias pelo menos é o que mais se aproxima; este documento foi fotocopiado no ano em que o encontrei, por volta de 1976/77, a máquina que fez o trabalho não estava nas melhores condições, uma vez que se encontra muito escuro e sem a mínima qualidade, contudo penso que seja um documento muito importante para o tema em estudo; no que diz respeito à cota não me recordo de a ter anotado ou se a perdi, restando-me apenas a cópia do documento que apresento (fig.7).

Figura n.º 7
(in:A.H.M.)

Algumas unidades de Milícias e até de Primeira Linha utilizaram chapéus redondos: no Brasil, na Ilha da Madeira e nos Açores (fig.8)

Figura n.º 8
(colecção particular)
















Texto e ilustrações: marr

segunda-feira, 7 de abril de 2014

MILÍCIAS


Introdução

Emboscada às tropas francesas executada por milícias populares
devidamente enquadrados por elementos dos Regimentos de Milícias em c.1809
Aguarela de Roque Gameiro (colecção particular)


 Durante a guerra contra a Espanha, no reinado de D. João IV, foi reconhecida a necessidade de aumentar as nossas forças militares, criando-se para o efeito as tropas auxiliares ou de segunda linha, que eram destinadas a reforçar o exército de primeira linha; deste modo as nossas forças militares passaram a ser constituídas pelos terços do Exército de Linha, pelos das Tropas Auxiliares e pelas Companhia de Ordenanças.

No ano de 1641 deu-se cumprimento às Ordenanças Sebásticas, criando-se um fundo de recrutamento indispensável à constituição de um Exército permanente, estabelecendo-se que os filhos das viúvas e dos lavradores, quando necessário para o amanho das terras, ficariam isentos do serviço de primeira linha; assim como os casados em idade militar, tendo-se constituído, para o efeito, um segundo escalão que se passou a denominar por Tropas Auxiliares ou milicianos, sendo constituíos por trinta terços, tendo cada um cerca de seiscentos a seiscentos e cinquenta elementos.

As leis que regiam os terços Auxiliares eram as Ordenanças de 1632, do reinado de D. Filipe III, que devem ter tido aplicação prática até cerca de 1707, continuando depois a seguir-se os mesmos regulamentos, embora actualizados de tempos a tempos e sempre que assim fosse necessário, mas sem uma legislação orientadora ou básica, ficando tudo um pouco ao critério dos respectivos Mestres-de-Campo. Além de tudo isto, é necessário ter em conta que durante alguns reinados a tropa de Linha foi totalmente descurada, podendo-se então imaginar o total abandono e desprezo a que as nossas Milícias se encontrariam, estando votadas ao total esquecimento por quase todo o século XVIII.

Decreto de 7 de Agosto de 1796
(colecção particular)

Finalmente, por força do Decreto de 7 de Agosto de 1796 (1), foram os terços das tropas Auxiliares convertidos em Regimentos de Milícias, sendo substituído o título de Mestre-de-Campo pelo de Coronel de Milícias. A partir dessa data os coronéis de Milícias, conforme as tropas pagas, passaram a ter o privilégio de poderem ostentar a banda de retrós enrolada à cintura em todas as funções militares, passando estas unidades a terem direito a bandeira, tambores e pifanos conforme as tropas pagas. Os Regimentos passaram a ficar constituídos, no seu estado completo, por um total de oitocentos militares, organizados num estado-maior, oito companhias de fuzileiros, uma de granadeiros e outra de caçadores. 

A primeira companhia, de fuzileiros, além da sua composição normal tinha mais um porta-bandeira e dois pifanos; a segunda, só tinha um porta-bandeira e as restantes eram de constituição normal; a companhia de granadeiros tinha uma composição igual à de fuzileiros acrescentando-lhe seis porta-machados e finalmente a companhia de caçadores era de composição normal.
Plano anexo ao Decreto acima mencionado
(colecção particular)


     (1)  Este Decreto durou até á publicação do Alvará de 20 de Dezembro de 1808
           (assunto a tratar na devida altura)

     Texto e ilustrações: marr 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

EPISÓDIOS E DOCUMENTOS DA GUERRA PENINSULAR I

Caríssimo leitor

Não se destina este blog apenas para divulgar os uniformes, armamento, equipamento, organização, etc., mas também para editar outros assuntos referentes ao tema "Guerra Peninsular", não só  documentos oficiais, mas igualmente memórias, apontamentos e outras notícias que foram publicadas ao longo dos anos sobre este assunto, principalmente pequenos textos, histórias, testemunhos, episódios por vezes pitorescos que saíram em revistas, jornais, magazines e que hoje jazem na poeira das estantes das bibliotecas e arquivos, oficiais ou particulares. Estes artigos, geralmente passaram despercebidos tendo, talvez, sido lidos e esquecidos, uma vez que a grande maioria foram impressos em revistas que regra geral vão para o lixo mal sai um novo número, com excepção para alguns coleccionadores que as vão guardando e, por vezes, passando-as de geração em geração.

Neste sentido e sobre o título em epígrafe, começo hoje a editar um episódio, "fac-símil", que foi publicada no ano dos Centenários de 1909.
Obrigado
    marr










In: "Serões" de 1909 (colecção particular)
marr

terça-feira, 20 de agosto de 2013

INFANTARIA E ARTILHARIA

BANDEIRAS
Bandeiras do Regimento de Infantaria N.º 23 (Almeida). Escolta com tambores
 e pífano. (Excelente reconstituição com os uniformes modelo 1810)
O Decreto de 19 de Maio de 1806 estabeleceu dois novos modelos de bandeiras comuns à Infantaria e Artilharia. Por consequência cada unidade passou a ter duas bandeiras: uma com as "cores do Rei" ou seja "Nacional" e outra "Regimental" que era de uma só cor.


No respectivo Decreto verificam-se os seguintes parágrafos respeitantes a este assunto:

                                                         §XXV
Bandeira "Nacional" do Regimento de Infantaria 15. Uniforme
 mod. 1806/10 (Aguarela do Mestre Carlos Alberto Santos,
colecção particular)
Cada regimento de infantaria e artilharia terá duas bandeiras, uma das cores azul, branco, escarlate e amarelo; e outra da cor do forro da farda de cada regimento

§XXVII
As bandeiras terão uma cinta (1) de seda das cores dos canhões das mangas e das golas do respectivo regimento enrolada na haste logo por baixo da lança com as pontas caídas






Bandeira Regimental do Reg. Inf. N.º 15. Uniforme de
Inverno com capote, mod. 1810/15 (Aguarela do Mestre
Carlos Alberto Santos, colecção particular)
§XXVIII
As bandeiras terão bordadas no meio as Armas do Reino, e por baixo as palavras REGIMENTO Nº....... (2)
Aqueles regimentos que pelo Decreto de 17 de Dezembro de 1795 foi concedido acrescentar nas bandeiras ao nome do regimento a palavra AO VALOR, conservarão esta mesma distinção, tendo por baixo das Armas as palavras AO VALOR DO REGIMENTO Nº......(3)



A bandeira "Real" ou "Nacional" era esquartelada de 16 quartéis de azul ferrete e escarlate, com uma aspa amarela, e no centro as Armas Nacionais assentes em fundo branco e com uma panóplia de armas, bandeiras e troféus. Nos quatro cantos viam-se as iniciais JPR com a respectiva coroa bordada a ouro sobre fundo branco. 




Bandeira "Nacional"  Reg. Inf. N.º 8
Reconstituição. A legenda não deveria
dizer "de Infantaria" (Museu do Buçaco)
Bandeira Regimental do Reg. Inf. N.º 8
(Museu do Buçaco)












A bandeira Regimental era lisa e da cor do forro da farda do regimento o que correspondia à cor da Região Militar onde a unidade pertencia, ao centro tinha as Armas Nacionais.

Pelo Decreto de  13 de Novembro de 1813, publicado na Ordem do Dia de 13 de Março de 1814, os Regimentos de Infantaria nºs 9, 11, 21 e 23, pela sua "brava conduta em batalha" viram as suas bandeiras a terem a seguinte legenda, escritas a letras de ouro a circundar as Armas Reais: JULGAREIS QUAL HE MAIS EXCELLENTE SE SER DO MUNDO REI SE DE TAL GENTE.
Esta legenda teria que se conservar nas bandeiras enquanto existisse qualquer membro de uma dessas unidades vivo.
Decreto de 13 de Novembro de 1813 (documento da época, Colecção particular)
Neste Decreto foi "retirada" a parte final respeitante aos Batalhões de Caçadores,
 porque serão objecto de um trabalho posterior neste blog

Bandeira "Nacional" Reg. Inf. N.º 9
(Sala de Honra do C.T.O.E. Lamego)
Pormenor das Armas e dos
troféus da mesma bandeira
(Sala de Honra do C.T.O.E. Lamego)














Em primeiro plano a bandeira Regimental de Infantaria 23
Nota: A gravata é azul claro, embora na foto pareça branco
(Reconstituição Histórica, Almeida 2006)



Notas:
(1) - Gravata

(2) - Em muitas reconstituições de bandeiras lê-se erradamente "Regimento de Infantaria ou Artilharia Nº.....", onde deveria ser "Regimento Nº......". No que diz respeito aos números dos regimentos estes eram escritos em algarismos árabes.


Bandeira "Nacional" do Regimento de Infantaria N.º 23 (Almeida)
(Excelente reconstituição)
(3) Foram os Regimentos de Infantaria números 3, 4, 6, 13, 18 e 19 que estiveram nas Campanhas do Rossilhão e da Catalunha (vide artigos a este respeito já publicados no meu blog
http://talabarte-marr.blogspot.com ).

Poderá existir uma certa confusão no que diz respeito à colocação destas legendas, por vezes, vê-se erradamente em reconstituições de bandeiras do modelo de 1806 a legenda "Ao Valor" sobre as Armas Reais e por baixo "Ao valor do Regimento Nº...."
Acontece que anteriormente as bandeiras tinham a legenda por baixo das Armas Reais, por exemplo: "Regimento de Infantaria de Peniche", tendo-se depois, por força do Decreto de 1795 acrescentado um listel sobre as Armas Reais com a legenda  "Ao Valor". Como os regimentos passaram a ser numerados, com a reforma de 1806, as novas bandeiras passaram a ter apenas a legenda por baixo das Armas Reais "Regimento Nº...." . A estas seis unidades foram substituídas por "Ao Valor do Regimento Nº...."


Bandeira "Nacional" Reg. Inf. N.º 4
Correcta  (Colecção particular)
A mesma bandeira como por vezes aparece
errada! Quer a colocação das legendas, a
numeração romana e a gravata com varias
 cores.













bandeira Regimental do Regimento de Infantaria N.º 10
(Museu do Buçaco)

Agradecimentos: As fotografias foram tiradas pelo signatário durante a Reconstituição Histórica em Almeida  no ano de 2006 (Dr.ª Clarinda Moreira); No Museu Militar do Buçaco (Coronel Ribeiro Faria) e na Sala de Honra do Centro de Tropas de Operações Especiais em Lamego (Coronel Sepulveda Velloso e Tenente-coronel Francisco Narciso). Ao grande amigo Mestre Carlos Alberto Santos e ao proprietário pela autorização da publicação das aguarelas. A todos apresento os meus agradecimentos e a minha amizade.

Texto e ilustrações: marr

terça-feira, 4 de junho de 2013

CAVALARIA

ESTANDARTES

Foi com a publicação do Decreto de 1806 que pela primeira vez se regulamentou o uso de estandartes na Cavalaria, assim:


Estandarte do 1.º esquadrão
(Colecção particular)

§ XXVI
Cada Regimento de Cavalaria terá quatro Estandartes  distribuídos pelos quatro Esquadrões, da maneira seguinte: O primeiro terá Estandarte branco; o segundo encarnado; o terceiro amarelo e o quarto azul.

Estandarte do 3.º esquadrão
(Colecção particular)

§XXVII
(...) os Estandartes terão do mesmo modo (enrolado à haste logo por baixo da lança com as pontas caídas) uma cinta de seda da cor da gola e dos canhões (das mangas) do respectivo Corpo.

Estandarte do 4.º esquadrão
(Colecção particular)

§XXVIII
Assim as Bandeiras, como os Estandartes terão bordado no meio as Armas do Reino, e por baixo as palavras "Regimento n.º- - -"
Regimento de Cavalaria n.º 11 (Almeida)
De cima e da esquerda para a direita: oficial lado e costas; clarim frente
e lado; soldado lado e costas. O capacete era igual para todos, podendo-se
ver de todos os lados. Calções azuis de Inverno; brancos de Verão e os de
cor de camurça ou amarelados de uso facultativo
(Colecção particular)

Observação: O termo "Estandarte" sempre foi atribuído à Cavalaria sendo mais pequeno que o das outras Armas, o termo "bandeira" sempre foi utilizado para as restantes Armas do Exército.

Curiosamente e não se sabem bem porquê, generalizou-se o termo "estandarte" para todas as Armas, isto sensivelmente há cerca de 40 ou 50 anos atrás, o que a meu ver está errado, uma vez que "estandarte" sempre foi e deveria continuar a ser exclusivo da Cavalaria!"

Assim como a ideia ridícula e sem sentido de se ter colocado um "Tambor-mor", que sempre foi exclusivo das tropas apeadas, a dirigir a fanfarra da Cavalaria da GNR, basta ver as fotos mais antigas... Deveria, sim, ser comandado por um clarim-mor com o respectivo instrumento, aliás antigamente era assim na GNR e assim foi e é em todas as tropas montadas de todo o Mundo! Excepto aqui no nosso País...

Texto e ilustrações:marr

sexta-feira, 12 de abril de 2013

CAVALARIA

MARQUÊS DE SÁ DA BANDEIRA


De seu nome Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, filho do Desembargador da Relação do Porto,  Faustino José Lopes Nogueira de Figueiredo, senhor do Prazo do Reguengo, e de outros, Moço Fidalgo, Alcaide-mor do Cadaval e Comendador de Cristo e de D. Francisca Xavier de Sá Mendonça e Cabral da Cunha Godinho. Sá Nogueira nasceu em Santarém no dia 26 de Setembro de 1795 e faleceu em Lisboa a 6 de Janeiro de 1876

Sá da Bandeira herói, grande militar e estadista. Não cabe, neste espaço, fazer a biografia deste grande militar e político, mas apenas apresentar muito resumidamente alguns elementos da sua vida, principalmente a sua carreira durante a Guerra Peninsular.

No ano de 1810 escreveu: 
No sítio de Queluz assentei praça no Regimento de Cavalaria
N.º 11, tendo apenas catorze anos e meio de idade. Meu ardente amor da independência nacional excitava, naquela época, todos os portugueses, para resistirem à invasão dos exércitos franceses.

Comecei o serviço de campanha nesse mesmo ano como Alferes do Regimento N.º 10 de Cavalaria, e depois de 1812 até à paz geral em 1814, como Tenente do Regimento N.º 4 da mesma Arma. Em 13 de Março deste último ano, num combate entre corpos de cavalaria, que teve lugar perto da aldeia de Viella, em França, e durante uma carga que o meu Regimento fez, dei e recebi muita cutilada, e, de estas, duas na cabeça, que me fizeram cair do cavalo e fui deixado por morto no campo, e depois da acção achei-me prisioneiro. Por esta ocasião fui recomendado por distinção.(a)

Bernardo de Sá Nogueira
In: História da Cavalaria Portuguesa
Colecção particular
Bernardo de Sá Nogueira, (...) foi ferido honrosamente, segundo Pinheiro Chagas (b), recebendo uma quantidade de cutiladas na cabeça e ficando por morto no meio da estrada.

Conseguiu contudo ainda com um resto de consciência arredar-se do caminho das tropas, se a cavalaria o esmagasse, não haveria para ele salvação possível. Ali esteve sem sentidos e considerado morto até que um soldado francês, que andava provavelmente despojando os cadáveres, conheceu que ele estava vivo, e o levou como seu prisioneiro. recolhido em casa de umas senhoras foi tratado por elas com infinita caridade, e tão reconhecido lhes ficou, que muitos anos depois, sendo já ministro e general, continuava a corresponder-se com elas. Tinham-no salvo efectivamente, mas em que estado deplorável ficara o moço oficial!

O moço oficial de 18 anos ficara quase completamente surdo, mas a sua rija cabeça resistira aos golpes terríveis que o deviam ter aniquilado.

Bernardo de Sá Nogueira tivera a felicidade de cair prisioneiro no fim da guerra, por isso, apenas se restabeleceu, pode recolher-se a Portugal, onde a primeira coisa que fez foi pedir licença para ir estudar, apesar de ter sido promovido a Capitão (...).

Notas
 In:
         
(a)   Colecção particular
(b)  Colecção particular
                                                                                 

Coorden. do texto e ilustrações: marr



sábado, 2 de março de 2013

CAVALARIA

EQUIPAMENTO

TALABARTE E TALIM
Para todos os postos: de couro amarelo e ferragem de metal da mesma cor. Chapa de metal amarelo com as armas em metal branco.
Colecção particular

PASTA
Para todos os postos: de couro preto que podia variar sensivelmente quanto à forma, tendo cravado, ao meio, as Armas de Reino em metal amarelo que também podia variar um pouco, vendo-se umas recortadas e outras em alto-relevo numa elipse com as Armas redondas ou não; a pasta colocava-se suspensa do boldrié por meio de duas correias de couro amarelo, tudo conforme a respectiva figura.

Colecção particular


Colecção particular















BANDOLEIRAS
Para todos: de anta branca com argolas para suster a canana.

Para oficiais inferiores e praças: de anta branca com mola para suspensão da espingarda.


Colecção particular

CANANA
Para todos: de couro preto envernizada com ferragens amarelas

Colecção particular

COBERTURAS DOS CAVALOS

OFICIAIS, FURRIÉIS E PORTA-ESTANDARTES

SELA
Com pequenos arções, tendo o assento junto ao arção de trás mais largo e alto do que o do lado oposto. Este é colocado sobre uma manta de pano azul ferrete ou cinzenta forrada a oleado.

XAIREL E COLDRES
A sela é coberta por um xairel de pano azul ferrete, guarnecido em toda a volta por um vivo da cor do forro da farda do oficial, este cobre a sela  e o cavalo desde as espáduas aos quadris. 

Exemplo de xairel  e capeladas com bordado largo, tenente-coronel,
e vivo da cor do forro. Colecção particular
Os coldres de couro são cobertos por capeladas de pano azul ferrete e tanto estes como os xairéis são guarnecidos por um galão ou galões bordados com fio dourado conforme a patente do seu utilizador.
Coldres sem as capeladas
Colecção particular

GUARNIÇÕES DOS XAIRÉIS E CAPELADAS

OFICIAIS SUPERIORES, FURRIÉIS E PORTA-ESTANDARTES

CORONEL
Dois galões distanciados, entre si, uma polegada e conforme o modelo abaixo


TENENTE-CORONEL
Um galão do modelo abaixo indicado

SARGENTO-MOR
Dois galões distanciados, entre si, uma polegada conforme o modelo abaixo

CAPITÃO
Um galão do modelo abaixo indicado

TENENTE
Dois galões distanciados, entre si, uma polegada e conforme o modelo abaixo

ALFERES
Um galão do modelo abaixo indicado

FURRIÉIS E PORTA-ESTANDARTES

Um cordão dourado no lugar do galão


OFICIAIS INFERIORES E PRAÇAS

SELAS E PELES
Com pequenos arções cobertos com pele de cabra que substituem os xairéis, assim como as capeladas
A pele das capeladas podiam variar um pouco na cor.
Colecção particular


ARREIOS  

PARA TODOS OS POSTOS
Curtos com barbelas chatas, cabeçadas simples; bridões com cabeçadas distintas das dos freios e cabrestos de couro preto, sendo as meias fivelas quadradas e chatas confeccionadas em metal amarelo, passadores de couro preto.

MALOTE
De oleado azul ferrete

BORNAL
De linho cru colocado a tiracolo

CANTIL
Igual ao modelo da infantaria


ORDEM EM QUE SE DEVEM FORMAR OS REGIMENTOS

                              EXERCÍCIO GERAL
Praça de Cavalaria 4
Gravura da época posteriormente
aguarelada. Colecção particular
Selim e freio; manta debaixo do selim; capotes enrolados e colocados sobre a almofadinha de trás; espada; pistola; carabina.
Vestuário: pantalona; botas e jaqueta (era esta, também, a ordem que deviam os ordenanças vestir quando transportavam ofícios).

ORDEM PARA PICADEIRO
Selim e manta; freio ou bridões (conforme o indicado e a classe).
Vestuário: barrete de polícia; jaqueta; pantalona e botas.

ORDEM PARA DATA DE ÁGUA
Praça de Cavalaria 4
Gravura da época posteriormente
aguarelada. Colecção particular
Bridões; cabeçadas; prisões; manta e cilha mestra ( a 6 ou 8 polegadas da frente, a manta dobrada para trás por cima da cilha mestra).
Vestuário: barrete de policia e jaqueta; calças de brim; sapatos, levando cada militar uma varinha. Este fardamento também era utilizado pela guarda à cavalariça.

EXERCÍCIOS A PÉ
Vestuário: jaleco de polícia; calças de brim; sapatos; carabina, canana e bandoleira

Texto e ilustrações: marr